A ciência continua a surpreender — e desta vez decidiu brincar com o nosso olfacto. Um grupo de investigadores da China e da Austrália conseguiu desenvolver um tomate geneticamente modificado que liberta um aroma muito particular: o cheiro característico de pipocas com manteiga.
Pode parecer uma curiosidade digna de feira gastronómica futurista, mas o projecto tem um objectivo científico bastante sério: recuperar a complexidade aromática que muitos tomates perderam ao longo dos séculos.
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O tomate (Solanum lycopersicum) é um dos alimentos mais cultivados e consumidos em todo o mundo. No entanto, a domesticação e o melhoramento agrícola privilegiaram durante décadas factores como produtividade, resistência a doenças e uniformidade visual. O resultado foi um fruto mais fácil de produzir — mas muitas vezes menos aromático.
Foi precisamente essa perda de aroma que motivou os investigadores a procurar soluções.
A equipa concentrou-se numa molécula chamada 2-acetil-1-pirrolina (2-AP), conhecida por produzir o aroma típico das pipocas e também presente em variedades de arroz aromático. O desafio consistia em fazer com que o tomate produzisse maiores quantidades dessa substância sem comprometer outras características da planta.
Para isso, os cientistas recorreram à tecnologia de edição genética CRISPR-Cas9, uma ferramenta revolucionária que permite alterar genes com grande precisão.
No estudo, os investigadores desactivaram dois genes específicos do tomate — chamados SlBADH1 e SlBADH2 — presentes na variedade comercial Alisa Craig. Estes genes regulam a produção da molécula responsável pelo aroma.
O resultado foi surpreendente.
Quando o gene SlBADH2 foi desactivado, os níveis de 2-AP aumentaram significativamente. Mas quando ambos os genes foram desligados simultaneamente, a concentração da molécula aromática aumentou mais de quatro vezes em comparação com tomates normais.
Apesar desta alteração genética, os cientistas verificaram que as características agrícolas essenciais permaneceram praticamente inalteradas. O tempo de floração, a altura das plantas, o peso dos frutos e até os níveis de açúcar, ácidos orgânicos e vitamina C mantiveram-se estáveis.
Isto significa que é possível criar tomates com aromas mais intensos sem comprometer a produtividade ou a qualidade nutricional.
Segundo os investigadores envolvidos no projecto, esta descoberta pode abrir portas a uma nova geração de frutas e legumes com perfis aromáticos personalizados. No futuro, os consumidores poderão encontrar tomates com sabores e cheiros mais complexos — potencialmente adaptados a preferências regionais ou gastronómicas.
Claro que a ideia de um tomate que cheira a pipocas pode parecer estranha à primeira vista. Mas os cientistas defendem que a melhoria do aroma pode aumentar a satisfação do consumidor e até valorizar comercialmente certas variedades.
O objectivo agora é transferir esta característica para variedades comerciais mais avançadas, mantendo a produtividade agrícola enquanto se recupera algo que muitos consumidores sentem falta: tomates que realmente cheiram… a tomate.
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Ou, quem sabe, a cinema.
Fonte: Journal of Integrative Agriculture / Oddity Central