Há histórias que levantam uma sobrancelha… e depois há histórias que levantam todas as questões éticas possíveis ao mesmo tempo. Na China, uma família tornou-se alvo de polémica após recorrer a inteligência artificial para criar uma versão digital de um homem falecido, com o objectivo de manter a ilusão de que ele continua vivo — tudo para proteger a mãe, de 80 anos, da dor da perda.
O caso, divulgado pelo South China Morning Post, descreve uma situação emocionalmente complexa: o homem morreu num acidente de viação, mas a sua mãe nunca foi informada. Em vez disso, a família decidiu manter a narrativa de que ele estaria a trabalhar noutra cidade, demasiado ocupado para visitas frequentes. Só que, com o tempo, essa “distância profissional” ganhou uma actualização tecnológica inesperada.
Com a ajuda de um programador, foi criado um clone digital alimentado por fotografias, vídeos e gravações de voz do falecido. O resultado, segundo os relatos, é perturbadoramente convincente: o avatar não só fala como ele, como reproduz o tom de voz, o sotaque e até pequenos gestos, como inclinar-se ligeiramente enquanto conversa. Basicamente, uma versão em vídeo chamada do filho… que nunca existiu na realidade presente.

A mãe, sem qualquer conhecimento da morte do filho, continua a interagir com esta versão digital. Pergunta-lhe se está a comer bem, se está agasalhado, e recebe respostas reconfortantes, prometendo visitas futuras quando “o trabalho permitir”. Uma rotina aparentemente normal — se ignorarmos o detalhe fundamental de que a pessoa com quem fala já não está viva.
A decisão dividiu opiniões na internet chinesa. Para alguns, trata-se de um acto de amor extremo, uma tentativa desesperada de poupar sofrimento a uma mãe idosa com problemas de saúde. Para outros, é uma ilusão cruel que adia inevitavelmente uma dor que terá de ser enfrentada mais tarde, possivelmente de forma ainda mais dura.
E aqui entra o debate maior: até que ponto a tecnologia deve ser usada para suavizar a realidade? A IA pode recriar vozes, rostos e até personalidades… mas será que também pode substituir o direito de alguém saber a verdade?
O caso levanta mais perguntas do que respostas e deixa uma sensação estranha no ar: estamos a entrar numa era em que já não é apenas a memória que preserva os mortos — mas também versões digitais que continuam a responder por eles.
E talvez essa seja a parte mais desconcertante de todas.