Há poucos dias vivi uma daquelas cenas que fariam rir qualquer realizador de comédia: a minha vizinha octogenária, uma senhora cheia de genica e com uma teimosia digna de campeã olímpica, decidiu sair para comprar tabaco. Tudo normal — até ao momento em que regressou. Só que, em vez de virar para a sua rua, meteu-se pela minha, com um ar tão perdido que mais parecia ter aterrado ali por engano num balão de ar quente. Se eu não a tivesse abordado, estou convencido de que acabaria a caminhar serenamente até à ribeira, sem dar por isso, talvez a perguntar-se porque é que a tabacaria já não aparecia no caminho de volta.
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Quando a interpelei, respondeu-me com aquele sorriso tímido de quem sabe que fez asneira, mas não quer admitir: “Ai, não sei o que me deu… achei que era por aqui.” E lá seguiu de volta, rindo-se de si mesma, com a dignidade de quem se perde, mas em grande estilo.
Ainda estava eu a pensar no episódio quando li uma notícia que me fez perceber que a minha vizinha até teve sorte. Um francês de 85 anos, igualmente octogenário, conseguiu o feito de se perder de forma épica: saiu de casa, em Châtillon-sur-Thouet, para uma simples consulta médica em Airvault — uma localidade a apenas 20 quilómetros de distância — e acabou 1.500 quilómetros depois, num hotel da Croácia. Sim, leu bem. O homem queria ir ao médico e acabou a atravessar metade da Europa!

Durante vinte horas, o idoso conduziu obedientemente, atravessando França, Itália e parte dos Alpes, sem nunca desconfiar que algo estava errado. Só quando a família alertou as autoridades e o exército rastreou o telemóvel é que descobriram o paradeiro do viajante improvisado. Questionado sobre o sucedido, o octogenário limitou-se a dizer que “não percebeu o que aconteceu” e culpou o GPS.
Enquanto a minha vizinha se desviava uns metros e quase visitava a ribeira local, o francês foi muito mais ambicioso — transformou um simples recado numa odisseia europeia. Ambos, porém, partilham o mesmo espírito: a serenidade de quem, mesmo quando se perde, encara a situação com uma espécie de sabedoria tranquila, como se o mundo fosse afinal um grande mapa por descobrir.
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Moral da história: perder-se pode ser chato, mas é também uma excelente desculpa para uma boa história — seja na esquina do bairro, seja em Zagreb.
Fonte: Ici Poitou