Um dente. Mas não é um dente qualquer. É um dente de rinoceronte. E não é de um rinoceronte qualquer. É de um rinoceronte com 24 milhões de anos. E onde é que estava ele? Escondido no frio do arquipélago ártico canadiano, talvez à espera que alguém tropeçasse nele com umas raquetes de neve e dissesse: “Olha, um dente!”
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Sim, leu bem. Um molar jurássico (vá, quase) estava ali quietinho, preservado em esmalte, enquanto o mundo girava e os humanos inventavam coisas importantes como o micro-ondas, o TikTok e o brunch.
Mas este não é apenas um achado para pôr numa prateleira de museu. Este dente pode mudar o rumo da ciência. Como? Graças ao seu esmalte super-heroico, capaz de proteger proteínas durante milhões de anos — muito mais resistente que o Wi-Fi da maior parte dos cafés.
O que é que isto tem a ver com dinossauros?
Calma, já lá vamos. Antes disso, convém explicar que estas proteínas são dez vezes mais antigas do que o ADN mais velho que alguma vez se analisou. A Paleoproteómica — o nome pomposo desta nova área — permite estudar fósseis que estavam, até agora, fora do alcance do ADN. E como as proteínas são mais rijas que o ADN (sim, o ADN é uma flor de estufa), podem dar pistas sobre a dieta, a evolução e até o sexo dos fósseis. Sim, tudo isto a partir de uma molécula. Os CSI da pré-história estão em êxtase.
Espectrometria de quê?
Foi através de um processo chamado espectrometria de massa (que soa a algo que se faria num laboratório ou num concerto de rock experimental) que os investigadores Ryan Paterson e Enrico Cappellini descobriram sete proteínas no dente. E o que é que fizeram com elas? Compararam com os primos vivos e extintos dos rinocerontes. Resultado? Concluíram que este rinoceronte divergiu dos seus parentes actuais entre 41 e 25 milhões de anos atrás. Já dava para um spin-off da saga “Ice Age”.
O Quénia também entrou na festa
No mesmo dia, outro estudo bombástico. Desta vez, no Quénia — e com temperaturas de estufa tropical a fazerem inveja ao Algarve em Agosto. Investigadores da Smithsonian e da Universidade de Harvard descobriram biomoléculas em fósseis mesmo nestes climas escaldantes. E sim, isso deixou muitos cientistas de queixo caído. Porque até agora achava-se que só o frio ártico conseguia preservar proteínas. O que é que se segue? Descobrir ADN num churrasco?
E os dinossauros?
A grande questão: será que estas descobertas nos vão finalmente ajudar a recuperar proteínas de dinossauros? Vamos já arrumar as expectativas. Os cientistas Matthew Collins e Evan Saitta dizem que… talvez. Um dia. Com muita sorte. E um frigorífico gigante.
Eles já tentaram analisar um fragmento de casca de ovo de titanossauro. Encontraram alguns aminoácidos (os Legos da vida), mas nada que desse para montar um T-Rex em laboratório. Ou seja, se está à espera de um dinossauro em tamanho real para passear no jardim, talvez queira dar tempo ao tempo. Ou investir num gato grande.
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Ainda assim, há esperança. Cappellini e Paterson acham que, dentro de 10 anos, talvez possamos extrair algo de útil dos fósseis de dinossauro. Até lá, continuamos a sonhar com a ideia de um laboratório a dizer: “Senhoras e senhores, apresentamos o novo rinocerossauro!”