Mundo Loco!
Os filtros que atrasaram um resgate
A mulher desaparecida que os filtros do Instagram tornaram irreconhecível — mesmo nos cartazes de busca
No México, em meados de abril, uma mulher de 30 anos chamada Grecia Guadalupe Orantes Mendoza desapareceu no estado de Chiapas. A família reportou o desaparecimento, a polícia activou o protocolo de busca, os cartazes foram afixados e distribuídos online. Até aqui, o procedimento habitual numa situação infelizmente comum.
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O problema é que ninguém a reconhecia nos cartazes. Não porque as fotos fossem de má qualidade. Não porque tivessem usado a foto errada. Mas porque as fotos que a família forneceu — retiradas das redes sociais da jovem — tinham sido tão extensamente editadas com filtros e ferramentas de inteligência artificial que a mulher nos cartazes simplesmente não se parecia com a mulher que estava desaparecida.
O problema que toda a gente usa mas ninguém tinha levado assim tão a sério
A utilização de filtros e ferramentas de edição nas redes sociais é tão generalizada que se tornou invisível. A maior parte das pessoas sabe, num plano abstracto, que as fotos que vê online não são representações fidedignas das pessoas que as publicam — pele mais lisa, olhos maiores, mandíbula mais definida, proporções ligeiramente ajustadas. É o idioma visual das redes sociais contemporâneas, e aprendemos a aceitá-lo sem questionar.
O caso de Grecia Guadalupe tornou esse problema abstracto brutalmente concreto. A Comissão Nacional de Busca de Pessoas Desaparecidas do México já tinha identificado esta questão antes do caso ganhar visibilidade — os seus relatórios internos indicavam que os formulários de identificação do protocolo Alba estavam a falhar repetidamente porque as fotos de redes sociais usadas para os preencher tornavam as buscas ineficazes. O caso desta jovem transformou um problema burocrático num debate público nacional.
“Como iam encontrá-la com fotos cheias de filtros?” foi um dos comentários que circulou amplamente nas redes sociais, com uma ironia que não escapou a ninguém: as mesmas plataformas que tinham tornado a mulher irreconhecível eram agora o palco onde se debatia esse facto.
O fim, felizmente, foi bom
Grecia Guadalupe foi encontrada viva vários dias depois do desaparecimento, numa estrada que liga dois municípios de Chiapas. As circunstâncias exactas do que aconteceu durante esse período permanecem confidenciais enquanto a investigação decorre.
O debate que o caso desencadeou, porém, não terminou com o seu regresso. Especialistas em segurança e investigadores de pessoas desaparecidas têm aproveitado a visibilidade do caso para pressionar por mudanças nos protocolos de identificação — nomeadamente a exigência de que as famílias forneçam fotografias recentes e não editadas, e que as autoridades verifiquem a autenticidade das imagens antes de as usar em material de busca.
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É um problema do século XXI que não tem precedente histórico directo — nunca antes foi tão fácil alterar a aparência de uma pessoa numa fotografia, e nunca antes as fotografias das pessoas estiveram tão sistematicamente alteradas. As forças de segurança estão a adaptar-se, mas a um ritmo que os especialistas consideram insuficiente. Enquanto isso, os filtros continuam a fazer o seu trabalho, um rosto de cada vez.